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Transição Energética e Química Verde

  • Energia
  • Por Eliomar Moura Júnior
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Vivemos uma época em que a transição energética já não é mais uma promessa do amanhã, algo que esteja ainda distante — ela acontece agora, diante dos nossos olhos, com a força de uma revolução silenciosa que atravessa indústrias, mercados e sociedades. O que está em jogo não é apenas substituir petróleo por energia renovável, mas redefinir os alicerces da economia global. E, nesse processo, uma verdade se impõe com clareza: sem a química, não haverá transição possível. É ela que transforma moléculas em combustíveis, resíduos em valor e ciência em soluções capazes de sustentar um novo modelo de desenvolvimento.

O Brasil, que historicamente se destacou pelo pioneirismo em biocombustíveis, acaba de dar um novo passo nesse caminho: a decisão de elevar as misturas obrigatórias para a gasolina e o diesel a partir de agosto de 2025. Essa medida não é apenas regulatória; ela sinaliza ao mercado que a pressão por alternativas de baixo carbono é irreversível e que a engenharia – em especial a Engenharia Química – está no centro da resposta que precisamos construir.

Ao redor do mundo, assistimos a uma verdadeira corrida tecnológica. Iniciativas que transformam resíduos plásticos em insumos químicos de alto valor, projetos que exploram a captura de carbono com matérias-primas inusitadas e avanços em fotossíntese artificial desenham um cenário em que a ciência se torna protagonista da economia verde. O Brasil, com sua matriz energética diversificada, base agroindustrial robusta e crescente inserção nas discussões climáticas globais, possui todas as condições para se posicionar de maneira estratégica nesse movimento.

A questão central que se coloca, portanto, não é se a transição energética acontecerá, mas como nós – engenheiros, gestores e empresas – seremos capazes de conduzi-la de modo a transformar desafios em oportunidades concretas. A resposta exige mais do que soluções técnicas isoladas: requer visão sistêmica, coragem para inovar e capacidade de antecipar tendências. É neste cruzamento entre ciência, indústria e sustentabilidade que se desenha o futuro da química verde — e, com ela, o futuro da própria transição energética.

Combustíveis de Baixo Carbono – Tendência Global e Ações Locais


Nos últimos anos, os combustíveis de baixo carbono deixaram de ser iniciativas isoladas para se tornarem parte essencial da estratégia energética global. Relatórios internacionais já apontam que os derivados do gás natural, quando associados a tecnologias de captura e utilização de carbono, estão dominando o crescimento das alternativas energéticas de transição. Em paralelo, biocombustíveis avançados, como bioquerosene de aviação e diesel renovável, emergem como protagonistas na corrida por soluções mais limpas e escaláveis.

Esse movimento global encontra eco no Brasil, onde a trajetória dos combustíveis renováveis sempre foi marcada por pioneirismo. A decisão recente de elevar a mistura obrigatória para E30 na gasolina e B15 no diesel é um sinal inequívoco de que o país aposta, mais uma vez, na bioenergia como pilar estratégico da transição energética. Mais do que uma medida regulatória, trata-se de uma mensagem clara ao mercado: a demanda por combustíveis sustentáveis crescerá e quem estiver preparado colherá os frutos.

No entanto, o cenário não é isento de riscos. A judicialização do Renovabio, com decisões liminares suspendendo sanções aplicadas pela ANP, expõe a vulnerabilidade de programas estruturantes diante de disputas jurídicas e pressões setoriais. Para investidores e indústrias, previsibilidade regulatória é tão importante quanto inovação tecnológica. Sem ela, o país corre o risco de perder competitividade em um mercado global cada vez mais dinâmico.

Aqui reside um ponto crucial: não basta adotar metas ambiciosas; é preciso garantir estabilidade institucional e coerência nas políticas públicas. Países que lideram a transição — como Alemanha, EUA e Japão — têm avançado justamente pela consistência de seus marcos regulatórios, que oferecem segurança ao capital privado. O Brasil, com sua base de recursos renováveis incomparável, precisa alinhar inovação e governança se quiser consolidar uma posição de liderança.

Química Circular – Do Resíduo ao Valor

Química Circular – Do Resíduo ao Valor


Se há um símbolo visível da crise ambiental contemporânea, ele está nas montanhas de plásticos que se acumulam em aterros, oceanos e cadeias de consumo. Durante décadas, a química foi apontada como parte do problema; hoje, ela se reposiciona como parte essencial da solução. O conceito de química circular nasce justamente dessa virada: transformar passivos ambientais em insumos de valor, fechando ciclos e reduzindo a pressão sobre recursos naturais.

Um exemplo inspirador vem da Europa. A Biofabrik, startup sediada em Munique, desenvolveu um processo capaz de converter plásticos de difícil reciclagem — como filmes flexíveis, embalagens multicamadas e resíduos contaminados — em óleos de base e ceras químicas que podem ser reintroduzidos na cadeia industrial. Esses produtos servem como insumos para combustíveis, lubrificantes ou até para a síntese de novos polímeros. A inovação não apenas evita que toneladas de resíduos sigam para aterros ou incineração, como também mostra, de forma prática, como a química pode ser alavanca de transformação positiva: reconstruindo valor a partir do que antes era descartado.

No Brasil, esse movimento também dá sinais concretos. Neste ano, em 2025, a Braskem realizou a primeira venda de polietileno circular produzido por reciclagem química na América do Sul, certificado pelo padrão internacional ISCC Plus. Esse marco demonstra que soluções de economia circular já começam a sair do laboratório e alcançar o mercado, oferecendo alternativas reais para empresas que precisam responder à crescente pressão por sustentabilidade.O Caminho que se DesenhaO ponto crucial, porém, vai além do anúncio de casos pontuais. Se a química é capaz de transformar lixo em valor, por que o Brasil ainda insiste em permanecer como exportador de commodities e importador de produtos elaborados? Que papel queremos que nossa indústria química desempenhe nos próximos 20 anos: o de seguidora de tendências globais, ou o de protagonista capaz de criar modelos inovadores de circularidade adaptados à nossa realidade?

A resposta não é trivial. Requer inovação tecnológica, mas também ousadia estratégica e políticas públicas consistentes. O futuro da economia circular não se resume a “reciclar mais”, e sim a reposicionar a química como motor da transição energética — uma química que fecha ciclos, reduz passivos e cria negócios onde antes só existia custo ambiental.

Química Circular – Do Resíduo ao Valor

Hidrogênio e CO₂ – Fronteiras da Transição


Entre as múltiplas frentes da transição energética, certamente as que estão despertando mais interesse estão relacionadas com o hidrogênio e o dióxido de carbono. O primeiro, pela sua versatilidade como vetor energético; o segundo, pelo desafio que representa como principal gás de efeito estufa. Curiosamente, ambos caminham cada vez mais próximos, indicando que a solução para um pode estar justamente na valorização do outro.

No cenário internacional, não faltam exemplos que mostram a velocidade da inovação, tais como o do grupo de pesquisadores da Khalifa University, nos Emirados Árabes Unidos, que desenvolveu um material de captura de carbono a partir da quitina presente em resíduos de camarão — um subproduto abundante da indústria pesqueira. O resultado é um adsorvente eficiente, de baixo custo, que transforma um resíduo marinho em aliado contra as emissões. Já na Europa, projetos de fotossíntese artificial avançam na tentativa de imitar a natureza, convertendo CO₂ em moléculas úteis para a produção de combustíveis e insumos químicos sustentáveis. São sinais claros de que o carbono, antes condenado ao papel de vilão climático, começa a ganhar status de recurso estratégico.O Caminho que se DesenhaNo Brasil, a Lei 14.948/2024 estabeleceu as bases para o mercado de hidrogênio de baixo carbono, prevendo um sistema de certificação rigoroso baseado na pegada de carbono ao longo do ciclo de vida. Essa estrutura regulatória permitirá dar credibilidade a projetos nacionais e deve impulsionar os primeiros pilotos ainda em 2025. Além disso, pode abrir portas para uma integração muito mais ousada: a de combinar CO₂ reciclável, proveniente da fermentação de etanol, por exemplo, com hidrogênio verde produzido por eletrólise que utilizaria energia verde. Essa rota, que já ganha atenção em centros de pesquisa internacionais, pode posicionar o Brasil de forma única, aproveitando sua força agroindustrial para gerar moléculas limpas de alto valor.

A pergunta que se impõe é: até quando enxergaremos o CO₂ apenas como passivo climático? Se entendido como insumo, ele pode se tornar um elo fundamental da economia de baixo carbono. O acoplamento entre hidrogênio e captura de carbono é mais do que uma possibilidade tecnológica: é uma visão de futuro, em que a Engenharia Química transforma desafios em oportunidades, gases estigmatizados em produtos nobres e a crise climática em alavanca de inovação.

Química Circular – Do Resíduo ao Valor

Ciência e Sustentabilidade – A Base para Inovar


Nenhuma transição energética será bem-sucedida se a própria ciência não se transformar. Por muito tempo, laboratórios e centros de pesquisa avançaram de forma quase ilimitada em busca de descobertas, sem medir o peso ambiental de seus próprios processos. Mas o cenário começa a mudar. Uma questão importante surge no artigo “Rethinking research sustainability for climate-friendly science”, publicado pela ChemEurope: como tornar a ciência não apenas produtora de conhecimento, mas também exemplo de práticas sustentáveis?

A discussão não é abstrata. Em vários institutos europeus, já existem iniciativas para reduzir a pegada de carbono da própria pesquisa científica: desde a substituição de reagentes tóxicos por alternativas mais seguras, até a implementação de protocolos de economia de energia em equipamentos de alta demanda, como freezers de ultrabaixa temperatura. Pequenas mudanças, quando multiplicadas por milhares de laboratórios, podem gerar impacto significativo. Essa ideia de “ciência limpa” coloca os pesquisadores diante de um desafio ético e técnico: como inovar sem reproduzir, em menor escala, os mesmos problemas que buscamos resolver?

Ao mesmo tempo, uma nova visão sobre o próprio dióxido de carbono ganha espaço. Em artigo recente da Scientific American, o CO₂ é apresentado em perspectiva histórica: durante séculos, foi parte essencial do equilíbrio climático e da vida na Terra. Somente na era industrial, com sua concentração em níveis inéditos, passou a ser visto como inimigo. Essa mudança de percepção é reveladora. Mais do que demonizar a molécula, a ciência precisa reinterpretá-la como insumo potencial, capaz de ser convertido em combustíveis sintéticos, materiais e insumos químicos. É uma mudança de narrativa que acompanha a mudança de paradigma tecnológico.

O desafio inspirador é inevitável: se a ciência não for capaz de se reinventar, limitando-se apenas a denunciar problemas ou propor soluções parciais, perderá seu papel estratégico na transição energética. Precisamos de uma ciência que seja parte ativa da solução climática — limpa em sua operação, ousada em suas perguntas e transformadora em seus resultados. Esse é o novo pacto que se desenha: não apenas gerar conhecimento, mas ser exemplo de sustentabilidade, traduzindo ideias em tecnologias que possam de fato mudar o mundo.

O Brasil no Contexto Global – Oportunidades e Desafios


Em maio de 2025, o Brasil alcançou um marco simbólico ao ser reconhecido pelo Climate Investment Funds (CIF) como líder global no ranking do Industry Decarbonization Program. O destaque não veio por acaso: o país possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, fortemente apoiada em hidrelétricas e fontes renováveis, e ainda concentra enorme potencial em biomassa, etanol, eólica e solar. Esse reconhecimento internacional reforça uma percepção crescente: o Brasil tem condições de desempenhar um papel estratégico na descarbonização industrial.

As oportunidades são claras em setores intensivos em energia e emissões, como aço, cimento e química. O Brasil é grande produtor de minério de ferro e, ao mesmo tempo, importador de aço de alto valor agregado — o que abre espaço para discutir rotas de siderurgia verde baseadas em hidrogênio. No cimento, setor responsável por cerca de 7% das emissões globais, há espaço para inovar com processos de captura e uso de CO₂ em escala industrial. E na química, a chance é dupla: de um lado, agregar valor à abundante base de biomassa; de outro, estruturar cadeias circulares que transformem resíduos em insumos, como já começa a ocorrer com a reciclagem química.

No entanto, o reconhecimento externo precisa se traduzir em resultados concretos, pois o país convive com um paradoxo: enquanto atrai interesse internacional por seus recursos e potencial, ainda enfrenta entraves locais como insegurança regulatória, burocracia e baixa capacidade de converter projetos-piloto em empreendimentos industriais escaláveis. A questão central, portanto, não é se o Brasil tem potencial — isso já está claro —, mas se conseguirá transformar esse potencial em liderança efetiva.

Torna-se, portanto, inevitável colocar a seguinte questão: queremos ser vistos como líderes pela abundância de recursos naturais ou pela capacidade de inovar e escalar soluções de baixo carbono? O futuro do Brasil no cenário global certamente dependerá de como responderemos a essa pergunta. Mais do que reputação, precisamos de resultados: projetos industriais que saiam do papel, cadeias de valor estruturadas e políticas que deem segurança a quem investe. Só assim a promessa de liderança poderá se transformar em realidade palpável.

O Caminho que se Desenha

O Caminho que se Desenha


A transição energética não será concretizada através de um roteiro único e muito menos terá um destino fixo — acima de tudo trata-se de um processo em construção, que será tecido a muitas mãos. O que se desenha, diante de nós, é um mosaico em que diferentes peças se complementam: combustíveis de baixo carbono abrindo espaço para novas rotas de mobilidade; a química circular transformando resíduos em valor; o hidrogênio e o CO₂ deixando de ser antagonistas para se tornarem parceiros em soluções inovadoras; e a ciência se reinventando para ser exemplo de sustentabilidade e não apenas produtora de conhecimento.

Nesse cenário, revela-se uma certeza que se impõe: a transição energética não será apenas energética — será também, e sobretudo, química. É no domínio das moléculas, nas reações que fecham ciclos e nas tecnologias que dão nova vida ao carbono, que poderemos encontrar a chave que vai transformar promessas em realidade.

O Brasil, com sua base renovável e sua riqueza de recursos, tem diante de si uma oportunidade rara de liderar essa transformação. Mas não podemos ficar presos a discursos: precisamos transformar a nossa imensa potencialidade em projetos concretos, em soluções escaláveis e em resultados que inspirem confiança.

É nesse ponto que a EngTera se posiciona: como uma parceira estratégica para empresas, indústrias e instituições que desejam navegar por esse caminho. Nosso propósito é transformar inovação em prática, ciência em aplicação industrial e sustentabilidade em vantagem competitiva. Pois o futuro que se desenha não é apenas um desafio — é uma oportunidade histórica para escrever, pela química, um novo capítulo para a energia, para a indústria e para o Brasil.

O Caminho que se Desenha
Eliomar Moura Júnior

Eliomar Moura Júnior é engenheiro químico formado pela UNICAMP, com mais de 38 anos de experiência em pesquisa, desenvolvimento e gestão industrial. Atuou em empresas de destaque no setor carboquímico e na indústria de materiais, liderando projetos de inovação, otimização de processos e implantação de sistemas de qualidade e meio ambiente. Atualmente é consultor técnico, apoiando indústrias na resolução de problemas complexos, no desenvolvimento de novos produtos e em iniciativas voltadas à sustentabilidade e transição energética.



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